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Ética: Para que
o Homem continue Humano
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Renate Jost de Moraes |
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No ano passado, foi realizado
na cidade de Bauru (SP), promovido pela USC, um importante Seminário
sobre o tema Ética em Pesquisa. Na oportunidade levantaram-se
assuntos relacionados ao genoma humano, fertilização in-vitro,
Bioética e outras questões semelhantes. Participaram como
conferencistas personalidades da comunidade científica, inclusive
do Instituto Ludwig, entidade de pesquisa genética que destacou-se
mundialmente pelo novo enfoque dado à leitura dos genes, agora
centrada sobre a região central da molécula RNA mensageira.
O acontecimento encheu de orgulho, não apenas os brasileiros, mas
todos aqueles que se dedicam e confiam na ciência. Com esta medida,
a Engenharia Genética prevê, para um futuro mais próximo
a eliminação de males genéticos, responsáveis
por muitas doenças até hoje consideradas incuráveis.
Entretanto, uma questão grave se levanta quando, pela biotecnologia,
se atua sobre células vivas, mais especificamente sobre os processos
reprodutivos de seres humanos, ou quando outras intervenções
sobre genes e embriões se tornam possíveis. Nestas horas,
o empolgamento pelo progresso ou pela ciência em si, muitas vezes
faz esquecer o objetivo básico dessas experiências, que deve
ser orientado para o sentido existencial do ser humano integral e para
sua dignidade intrínseca, não apenas para o genoma.
Assim, se focalizarmos, por exemplo a inseminação artificial ou a fertilização in vitro, sabemos, sem dúvida que este recurso pode ser uma solução para casais onde se apresenta o problema da incapacidade de terem filhos. Mas ao lado desse benefício, muitos questionamentos imediatamente se levantam, a partir de um enfoque mais global e humanístico do ser humano, pois na maioria desses casos, separa-se destes recursos biológicos , o contexto conjugal, o de pessoa e do Amor de um casal. Em breve, talvez não se necessite, nem mesmo de um pai, pois a doação do sêmen pode ser buscada numa banca de congelados. Teremos então, a perversão das relações de parentesco, que pode fazer uma criança ser filha do avô, do irmão ou de um estranho qualquer; que se refletirá geralmente sobre o psiquismo na inteligência, na forma de distorções do raciocínio lógico, de dislexia, de esquizofrenia, de autismo, podendo gerar problemas físicos, como a distrofia muscular, conforme já tivermos experiências com situações similares, provocadas pela infidelidade conjugal ou a separação conjugal. E a criança, no futuro, terá a difícil ou a impossível tarefa de aprender a existir sem o referencial normal da origem familiar. O que isto significa explica-se hoje por meio dos resultados obtidos com a pesquisa do inconsciente. Todo o sentido existencial constrói-se na criança com vistas ao momento da concepção e da fase da gestação, onde ela busca, de imediato, o amor dos pais. E quando a criança não se percebe vinda deste contexto, pode ela agir negativamente sobre seus genes, e com muita presteza, mesmo impedindo que aconteça o sucesso de uma intervenção genética de cientistas. Outra questão ética, entre tantas que a Engenharia Genética hoje levanta, é a que se refere à conduta para com os embriões. Não se prevê na declaração dos Direitos Humanos os direitos do embrião. Mas ele está aí como ser humano com auto-consciência, desde que se apresenta o seu patrimônio genético na concepção. E numa estatística divulgada pela Austrália, dizia-se que de 15 fertilizações in vitro, 14 embriões eram descartados por serem considerados de menor qualidade. Pergunta-se: pode-se descartar um ser humano? Menor qualidade biológica é sinônimo de menor qualidade humana?! A nível de inconsciente, desde a concepção, toda a pessoa sabe, ela própria, objetivar as qualidades únicas de seu ser e especificar a função (missão) particular que terá no mundo. Sem outras importantes considerações, pergunta-se: saberemos avaliar o que a humanidade deixará de receber com a falta destas pessoas que foram descartadas?! Ainda, quanto aos embriões congelados, sabemos pela pesquisa indireta do inconsciente que o embrião sente frio e não só da condição real, mas da ausência do amor, da indiferença pelo seu ser, pela angústia de não saber seu destino e por não poder existir no agora. Outra questão é que no futuro, deve-se poder interferir pela fertilização artificial de meninos e meninas; como ficará o fantástico equilíbrio que a natureza até hoje conseguiu manter entre número equivalente de nascimentos de homens e mulheres?! Enfim, as perguntas éticas em torno das novas descobertas da Genética são intermináveis e assustadoras. Isso, porque o genoma humano não é apenas a seqüência ou o mapa genético de determinada pessoa, mas também do ser humano universal. Tudo indica também que não se faz no gene somente o registro biológico. mas provavelmente o psicológico e humanístico. O genoma humano traz ainda a hereditariedade dos ancestrais da mesma forma como o potencial de retransmissão às próximas gerações. Diante disso, perguntamos: se cientistas indiferentes à Ética e à dignidade humana passarem a exercer o controle sobre a essência estrutural do ser humano, será que no futuro próximo ainda seremos humanos da forma como nos conhecemos hoje?! Não partirá o próprio homem a fabricar monstros que tornarão a convivência e o existir no mundo impossíveis e que acabarão por destruí-lo?! Diante de todas essas reflexões desperta-se para a importância atual da Bioética como ciência de orientação às possibilidades da pesquisa genética. Alicerçada sobre os Direitos Humanos e os valores pré reflexivos do homem, é de seu conteúdo difundir normas em defesa dos princípios e da dignidade humana. Precisa a Bioética propor condutas que não sejam dogmáticas e que não inibam a pesquisa, mas que também não dêem margem ao relativismo, uma vez que este acabaria por anular o efeito de qualquer traçado ético. Deve a Bioética garantir de que a desenfreada vaidade da busca do progresso em si, não suplante o objetivo de servir ao homem na caminhada de seu processo de humanização. Mas a Bioética, disciplina fundamentada na Filosofia, encontra também dificuldades em impor-se ao paradigma científico. Para o mundo da ciência, a Ética é polêmica e os próprios cientistas que compõe os Institutos de Bioética discordam entre si pela divergência de princípios, tendo ainda dificuldades de entendimento mútuo pela variedade de linguagem de cada especialidade dos membros componentes. Assim, ao proferirmos nossa conferência como membro do comitê de Ética e Pesquisa, junto à USC, alertamos os participantes para o fato de que, há 16 anos, num Congresso de Bioética na Holanda, levantavam-se praticamente as mesmas dificuldades para a Bioética, que atualmente (ano 2000) se levantaram no Congresso de Bioética da Espanha. Mas como psicóloga criadora do método de Abordagem Direta do Inconsciente foi-nos possível dar também uma possibilidade de solução a essa questão. De fato; ao penetrar-se, através do questionamento específico, o inconsciente profundo, ou a interioridade essencial, ou ainda, a área intuitiva do ser humano, vai-se muito alem do psico-físico. Observa-se que nessa interioridade encontram-se todos os tipos de resposta aos questionamentos do saber, identificando-se, até mesmo a dimensão humanistica. Existe ai uma espécie de indicação-padrão para valores humanistico- universais. Verificou-se também que todo o desvio desse eixo padrão, reflete-se necessariamente em perturbações psicológicas, e estas como última instância, em problemas de ordem orgânica ou física. A recíproca é também verdadeira: o tratamento feito a esse nível de interioridade age sobre o psiquismo e o físico, curando-os. Desta forma, comprova-se pelos efeitos que o nível humanístico realmente existe, está dentro de nós e é o responsável primeiro pelos problemas psico-físicos, inclusive os genéticos do homem. Assim confirma-se na prática clínica (30 mil casos tratados) o que disse o brilhante filósofo Bergson sobre a intuição ou nossa interioridade. Diz Bergson: no nível da intuição, ciência, filosofia e religião não se contradizem. A contradição está no método de investigação, não na realidade. Nosso próprio inconsciente, portanto, é capaz de fornecer um referencial seguro à Bioética. E respostas assim fornecidas não estão apenas no inconsciente dos bioéticos, mas estão também no inconsciente dos cientistas, pois baseiam-se no referencial dos valores humanístico-universais. O difícil, portanto não é vencer os impasses de adaptação das reflexões ético - filosóficas ao paradigma científico. Difícil é o ser humano realmente querer enfrentar sua interioridade profunda e assumir mudanças de ser para reajustar-se as verdades universais, que desde todos os tempos estão presentes dentro e não fora dele e que são necessárias à sua cura plena. Enfim, a Genética apresenta-se hoje como a evidência das realizações científicas do momento. Mas imensamente maior será o valor de suas conquistas se , em relação aos resultados obtidos e a aplicabilidade prática da mesma, atentarmos para uma Bioética solidamente estruturada sobre a natureza intrínseca do ser humano, para que através da Genética não só tente apenas modificar certos genes considerados prejudiciais, mas para que cuidemos de sanar as raízes dos sofrimentos do homem como ser, resgatando a integralidade sadia e equilibrada da humanidade. |