Versão 3

Célia Auxiliadora dos Santos Marra
Tip terapeuta

Nesse embate para a liberação do uso das células tronco a partir de embriões congelados, tivemos a oportunidade de presenciar o lobby junto ao Congresso Nacional, feito por entidades a favor desse “assassinato em massa”. Crianças e adultos em cadeiras de rodas punham à mostra sua deficiência física na intenção de sensibilizar os parlamentares por sua causa. Se não bastassem outros motivos, esse, por si só já seria suficientemente forte para mobilizar os mais incautos a favor do uso de células-tronco, obtidas através de embriões congelados.

 

Mal sabem - ou não sabem - que uma suposta recuperação de saúde física pode se dar a partir do alto preço da vida de crianças, ainda no seu início. Se a ciência duvidasse de que um embrião não fosse vida, não o manteriam no criogênio para uma futura implantação no útero, a fim de prosseguir em seu desenvolvimento. Também não se refeririam ao estágio de gestação da criança como sendo “vida” intra – uterina.

É notório ver, através de debates na mídia televisiva ou escrita, o quase imperceptível embaraço dos debatedores a favor desses experimentos, quando têm que se posicionar entre o que é e o que não é vida humana no ventre materno. Os posicionamentos passeiam pela contradição até os sofismas, em busca de uma justificativa convincente.

Para o Brasil, cuja população é predominantemente cristã e católica, é paradoxal a posição de matar uma vida humana para salvar outra.

 

Ou se faz isso por confusão mental a respeito dos valores humanísticos, ou se faz por ignorância sobre a origem do ser humano. Recuso-me a pensar que poderia ser por simples desvalorização da vida humana.

 

 A vida eterna não é aqui, nos afirma Jesus em muitas passagens da Bíblia. Portanto, a vida terrena é para ser vivida, segundo a missão para a qual ela veio ao mundo, mas obedece a um princípio, meio e fim, que culmina com a morte física.

 

Entretanto, o mundo demonstra um incomensurável medo da morte. Por que isso acontece? Será porque não se acredita que haja vida eterna apregoada por Jesus? A vida física poderá ser prolongada com a colaboração da ciência, ainda que seja à custa de outras vidas; mas a morte é inevitável.

A polêmica em torno da vida no período de gestação e as muitas dúvidas surgidas a partir desse enfoque tem povoado o imaginário das pessoas.

Até hoje, parece que grande parte da população pensa que a criança no útero materno é apenas um amontoado de carne que só se torna gente depois que se move no útero ou depois que nasce.

 

Ou ainda, se considera que o ser humano só passa a existir quando se estabelece o sistema neural e a conseqüente formação do cérebro. Antes a criança não poderia pensar nem sentir porque se pensa com o cérebro; portanto o bebê ainda não existe.

 

Então, se há dúvidas, por que não plagiamos um preceito do Direito de que, na dúvida pró-réu? Por que não decidimos que, na dúvida, pró-vida e pró-criança?

 

Entretanto, podemos sair do imaginário e da dúvida para uma realidade em que se tem comprovado a existência de uma instância não física do ser humano e que independe do seu estágio de formação corporal para se dar conta de si mesmo.

 

Nessa dimensão a criança existe em sua plenitude desde o momento da união sexual dos pais. Essa existência independe dos meses ou anos de vida física porque é eterna. É a dimensão noológica do homem, a dimensão do espírito, que existe antes da formação do corpo físico e não morre quando o corpo morre.

 

O marco cartesiano da Ciência isolou essa dimensão do espírito, como se isso fosse possível. Então, o ser humano dividido, é tratado em parte; em conseqüência, na maioria das vezes, curado em parte e, portanto, não harmonizado no seu eu integral.

 

Se não acreditamos no que a fé cristã nos diz da pré-existência do espírito; se não acreditamos que o ser é humano desde a sua concepção, podemos nos valer das experiências da Abordagem Direta do Inconsciente e sua aplicação no processo terapêutico, a Terapia de Integração Pessoal, uma metodologia psicoterápica desenvolvida pela psicóloga Renate G. Jost Moraes, que abrange o ser humano integral e que vem lutando por seu reconhecimento na comunidade científica convencional.

 

Pela ADI-TIP, esta metodologia que se vale de uma técnica não hipnótica, descobre-se que é possível pesquisar a interioridade do ser humano, e acessar os registros de vivência mais profundos do seu inconsciente.

 

Pela experiência da TIP em mais de 80.000 casos tratados até agora, o ser humano se percebe como pessoa desde o momento de sua concepção, até mesmo quando, de uma dimensão não física, identifica o óvulo e o espermatozóide que o vão gerar e, ainda ali, toma decisões. Nessa dimensão, a criança não pensa com o cérebro ainda não formado, mas pensa com sua essência única, original e indestrutível e já se percebe ali em sua corporeidade.

 

A pré-existência do espírito já apregoada pelos filósofos desde a antiguidade é assim comprovada por todos esses inconscientes abordados, e a existência do ser humano como pessoa inteira, ainda que fisicamente não o seja, é confirmada por todas as pessoas que se dispuseram a enfrentar seus obstáculos em direção a uma mudança profunda.

Nessa dimensão, também, o ser humano se dá conta de que existe um sentido para o seu “querer vir ao mundo” e que ninguém está aqui por acidente.

Pelo questionamento dos diversos inconscientes abordados, temos obtido uma consistência de respostas que nos informam que o ser humano usa sua liberdade de escolha para aceitar vir ao mundo e o faz com vistas ao cumprimento de uma missão básica.

 

Mesmo os mais céticos têm que se render à evidência de que nem todas as relações sexuais entre pares sadios culminam com o encontro entre o óvulo e espermatozóide que promove o desabrochar da vida. 

Então, como poderemos nos desfazer de seres humanos que por livre opção quiseram vir, atraídos por uma missão a ser cumprida aqui?

 

Ainda, para confirmar essa realidade, a Bíblia nos fala em muitas passagens, que a criança é ser humano desde o útero materno.  “Antes de formar você no ventre de sua mãe, eu o conheci; antes que você fosse dado à luz eu o consagrei...” (Jeremias - 1: 4). Ou, em outra passagem do Salmo 58:4 que diz: “... desde o seio materno os injustos se extraviam; desde o ventre já falam mentiras...”

Ou acreditamos nisso ou jogamos a Bíblia fora!

O tema posto em reflexão nesse artigo constitui somente uma vertente da grande polêmica gerada a partir da primeira experiência com fertilização in vitro, uma grande descoberta da ciência para satisfazer os desejos de pais inférteis. Dentre os assuntos polêmicos decorrentes dessa experiência, focalizamos os bebês gerados e destruídos, muitos deles ainda vivos, por má formação. Os bebês sadios que sobram são congelados para um aproveitamento futuro, porque sem sombra de dúvida são bebês e podem se desenvolver. Não fosse essa certeza, eles teriam sido destruídos também.

 

Essa sobra de crianças já começava se constituir em um problema para seus pais e para a medicina, quando a descoberta do uso das células-tronco pela genética, veio a calhar, para resolver o impasse. Parece que a sociedade ainda não se deu conta de que a nova utilidade dos embriões continua não justificando a destruição de suas vidas e que esta solução não a exime de gerar conflitos éticos e morais de proporções inimagináveis. Nessa luta em que se intercruzam apelos emocionais, interesses políticos, econômicos e jogos de poder, quem perde é a vida, no seu bem maior.

 

Com a aprovação da Lei, pelo menos até agora, tem tido sucesso a pretensão da ciência, ainda que ela não saia do nível da matéria. A transcendência fica alijada desse processo, trazendo conseqüências irreversíveis para o sentido verdadeiro da vida humana. A sociedade continua se perdendo na busca de satisfações imediatas sem dimensionar o custo decorrente de suas ações.

Precisamos estabelecer o hábito de nos questionarmos mais profundamente para que não nos deixemos enganar por falsas luzes que ajudam a obnubilar nossa mente e nosso discernimento.

Precisamos manter um estado de união contínua com Deus e uma vigilância constante sobre nossos desejos e nossos atos.

Precisamos refletir sobre nossos valores e para onde estamos caminhando. E, se temos dúvidas, precisamos buscar ajuda em processos de auto-conhecimento, comprometidos com os valores humanísticos fundamentais e que, a exemplo da ADI-TIP, buscam evitar a animalização do ser humano. O exercício de reflexão constante sobre nós mesmos e sobre tudo que nos rodeia nos levará a perceber que a ciência sem espiritualidade poderá progredir, mas não passará do rés do mundo e nele se bastará até que venha a morte. Devemos buscar a coerência entre as coisas do mundo e as pretensões de Deus para que nossas ações possam promover o crescimento e o bem-estar das outras pessoas, sem nos deixarmos enganar pelo falso bem. Devemos nos posicionar contra esse estado de coisas e ir à luta para tentar reverter essa situação porque a fé sem obras é nula, como bem nos exorta a palavra de Deus.

Ou ficamos alertas ou vamos navegar em mar revolto sem saber de onde viemos e nem para onde vamos. Não vamos ter parâmetros dignos de referência para tomar decisões e ficaremos à mercê de discursos esvaziados de sentido. Então, estaremos definitivamente separados do nosso Criador e assistiremos à desintegração acelerada da família, da sociedade e de nós mesmos.