Nossas Crianças Natalinas

Renate Jost de Moraes
Psicóloga – Criadora do
Método ADI/TIP

Estamos no final do ano 2000 e, mais uma vez, diante do Natal. Por todas as ruas, árvores e casas, pequenas luzes brilham, às centenas, festejando o Menino-Deus que ,no primeiro dos Natais, nasceu.

Olho as luzes e penso nas crianças. São tantas, no mundo, destinadas a nascer ,a terem um natal .Pois, em cada uma delas manifesta-se uma luz, uma estrela, uma missão maravilhosamente planejada e única, uma contribuição específica na conduta da humanidade. Em cada coraçãozinho pulsando em úteros maternos, há uma mensagem de paz, de amor, de alegria. É o homem novo atualizando o velho, gerando a esperança de um mundo melhor...

Olhando as luzes, ouço nomes de crianças: Maria, José, Antônio, Francisca... será que o ser humano ainda quer essa esperança? Quer ele ainda contribuir para um mundo melhor?! Então como se explica que defenda a “matança de inocentes”, como nos tempos bárbaros de Herodes?! Será que em nada melhoramos, como seres humanos, desde àquela época?! É compreensível que ainda hoje abortemos a vida de crianças a nascer com a mesma frieza de 2 mil anos atrás, arrancando-as do ventre materno para jogá-las, aos pedaços, em latas de lixo?!

Para evitar essa barbárie, muito ajudaria se a metodologia científica tradicional já tivesse evoluído na compreensão do homem integral, entendendo sua realidade ontológica, capaz de alterar as conclusões sobre o funcionamento orgânico e mental. Nada sabe a ciência dizer sobre a criança na fase de gestação como “ser”, tanto que a Declaração dos Direitos Humanos ignora sua existência. As pesquisas que, há dezenas de anos, orientam os estudos sobre essa fase , constatam apenas fatos irrelevantes como a reação do feto à música ou a outros barulhos externos...

Entretanto: há um quarto de século já existem estudos, observações e estatísticas sobre a percepção, o pensamento, a afetividade, a capacidade de comunicação, a consciência de si e a atuação sobre os outros e sobre si mesma, da criança de útero materno. Esse estudo realizado no Brasil e difundido em outros países, especialmente na Alemanha, realiza-se cientificamente por um método de pesquisa de campo, expressado na forma de um questionamento específico, focalizado diretamente sobre a interioridade mais profunda do ser humano (Abordagem Direta do Inconsciente ou ADI). Sabe-se, daí, que o ser humano responde, a partir do inconsciente, sobre si mesmo, sobre características pessoais e universais, sobre a origem e a formação de doenças ,sobre sua cura, sobre tudo, desde o momento da concepção. Refere-se ele também aos registros de seus antepassados. Na concepção, o paciente pesquisado revela a percepção daquela dimensão sempre conhecida, mas nunca antes identificada pela ciência, a pessoalidade, que chamamos de Eu-Pessoal e que se expressa através de uma corporeidade não física, mas visível a partir da interioridade pessoal. Observa, a criança, então, na dimensão desse Eu-Pessoal, os seus pais, seus gametas, enquanto o espermatozóide caminha em direção ao óvulo. O Eu-Pessoal é o homem como “ser” , já completo e perfeito na concepção. Coordena ele seu princípio vital e se posiciona em função do seu livre querer. O cérebro, na medida em que se desenvolve, acata essas decisões, transforma-as em ordens cerebrais e em condicionamentos, e lança-as sobre o psiquismo e o organismo. O referencial para essas decisões pessoais é o Amor... A criança sofre com o desamor do estupro, mas é compensada porque ainda se sente impregnada pelo Amor que ela própria diz vir do Infinito, no início da concepção. Ela importa-se com o amor dos pais entre si e para com ela, na fase da gestação. E em função desse Amor ou do desamor vai reagindo e decidindo, sendo que essas decisões livres geram mudanças psíquicas e físicas correspondentes.

Qualquer doença física ou mental é, portanto, a última instância de um processo de enfermidade que iniciou na gestação ou na primeira infância. Daí, entende-se também porque tantas doenças são consideradas incuráveis pela Medicina, por que são tratadas apenas em relação às suas expressões orgânicas, que é o estuário da constante fonte retroalimentadora, sediada na interioridade humana, ou no inconsciente noológico.

Sabemos, de nossa pesquisa, que esse Eu-Pessoal, que surge na concepção, mas na fase anterior à união física dos gametas, sobrevive também ao corpo físico. Essas informações são precisas e inequívocas, porque confirmadas repetitivamente em 30 mil pacientes. Assim sabemos também das influências negativas de um aborto. Uma mãe que aborta uma criança pode vir a sofrer de angústia, depressão, então buscando desesperadamente ajuda nos consultórios psicológicos, ou médicos. Tende ela a somatizar o aborto provocado no próprio corpo, gerando problemas de ordens diversas e, as vezes, não conseguindo engravidar, quando o desejaria. Os problemas assim gerados tendem a repetir-se nos filhos, nos netos, nos bisnetos....

Diante dessa realidade, não podemos deixar de sentir indignação com certos raciocínios que levam a crer na necessidade de “apagar luzes natalinas” para que se possa “prevenir” males piores... Seria possível gerar o bem a partir do mal, a vida mais tranqüila a partir da morte de seres humanos em sua fase mais cândida, quando puros e indefesos?! Não entendemos que as crianças são renovadoras constantes da mensagem de Luz, de Amor e da ternura para nosso mundo escurecido pelo ódio?! Ou seríamos nós daqueles humanos que se enquadram na ignorância arcaica de Adão e Eva, pensando sermos os próprios “deuses-criadores”, capazes de gerar a essência da vida e com direito de decidir sobre a continuidade ou não daquelas vidas humanas que a natureza aconchega no ventre de uma mulher?!

É impressionante o quanto o homem, chamando-se de “racional”, consegue ser até pior que os irracionais! Em seu contra-senso, coloca ele assuntos inquestionáveis, como o aborto provocado, em termos de um simples e liberal “achismo”. E consegue ele distorcer a lógica intencionalmente para colocá-la na linha do seu interesse imediato. A atitude contraditória faz com que em nosso mundo moderno lute-se “nobremente” contra a “discriminação” de raças, credos, opções sexuais, enquanto se discrimina a criança em gestação, decidindo arbitrariamente que é ela quem deve pagar com a vida pela violência de um estuprador. Outras vezes, decide-se também que é ela quem deve morrer, quando sua mãe adolescente não pode criá-la, ao ter engravidado, após uma vida sexual irresponsável. E defende-se , inclusive, a idéia de gerar recursos para facilitar os abortos, para que as mães com filhos indesejáveis possam “matar” seus filhos em gestação em melhores condições sanitárias, evitando assim que elas próprias corram risco de vida. Ora, com que direito afirmaríamos que a vida da mãe é mais válida que a do seu filho em gestação?! Como fica aqui a questão discriminatória?! Por outro lado: sabe-se pela Biologia e a Medicina que a criança é independente de sua mãe como ser, desde o seu primeiro surgir no ventre da mesma. Mas reforça-se a ignorância sobre essa verdade, apoiando-se a difusão repetitiva de chavões, tais como “a mulher tem direito sobre o seu corpo”, como se a criança fosse apenas parte do corpo da mulher e, como se não tivesse ela seus próprios direitos pessoais, principalmente em querer viver! E no ambiente ecológico existe também a contradição: realizam-se louváveis campanhas e fiscalizações rigorosas em torno da preservação da natureza, mas permanece-se indiferente à eliminação incondicional do ser humano em gestação, em função do qual a preservação da natureza encontra seu único sentido!

A inversão de fatos e valores intrínsecos do ser humano irradia-se também em direção ao cientificismo das “possibilidades”. Existem “possibilidades” altamente discriminatórias na manipulação de gens e do genoma. Fala-se em chegar a evitar todas as doenças no futuro, pelo diagnóstico e a eliminação do ser em gestação, que apresente alguma possível ou real anomalia. Na vaidade intelectual pelas “possibilidades” corre-se o risco de esquecer que elas devem servir à dignidade de cada ser humano e não pode o ser humano ser sacrificado às “possibilidades” cientificas... No mesmo contexto cientifico, também a preocupação com a superpopulação é utilizada na defesa do aborto. Paradoxalmente quer-se fazer a clonagem humana que multiplica a série de “iguais” e em número incontrolável.... Isso faz parecer que em lugar de seres humanos “pessoalizados” preferimos criaturas resultantes da clonagem, verdadeiros monstros, porque desprovidos do toque humanístico, uma vez que essa dimensão não pode ser reproduzida em laboratório...

E assim, de distorção em distorção, elaboradas com a inteligência orientada para o reverso, busca-se em nossos dias, cada vez mais, a facilidade, o prazeroso, o interesse imediato. E o ser humano vai renunciando ao seu processo de humanização, recuando ao seu nível animalesco, deleitando-se com sua autodestruição, gerando a crescente revolta e violência do gênero humano contra si mesmo e sobre os outros, enfim desencadeando processos de anomalias sociais, o caus, a morte....

Queira Deus que essa mensagem possa ser lembrada a cada luzinha que se vê piscando nesse Natal e que sirva de alerta para despertar nossas consciências adormecidas e confundidas.... e que o grito de socorro de nossas crianças “natalinas” possa chegar em tempo aos nossos ouvidos, aos nossos corações, à nossa inteligência, provocando uma resposta audaciosa de reação imediata em defesa desses nascituros... Pois só enquanto houver luzes de Natal, ainda é tempo, ainda há esperança, ainda é “Noite Feliz”.